Como escolher um telescópio

Escolher um telescópio pode ser uma tarefa difícil porque não há nenhum instrumento perfeito e adequado a todos os tipos de observação astronómica.

A astronomia é uma das ciências onde o contributo prestado pelos amadores é mais notório e, numa altura em que existem super telescópios, super rádio-telescópios, telescópios espaciais etc, ainda o trabalho de amadores pode ter substancial utilidade que afinal até é bem reconhecida pelos astrónomos profissionais. Um exemplo mediático disso mesmo é a descoberta de novos cometas, muitas vezes pertencente a amadores. Não quero com isto dizer que todo aquele que gosta de astronomia deva obrigatoriamente mostrar resultados nesse campo. A maior parte destas pessoas não se preocupa com isso e limita-se a aprender e a observar o céu por puro prazer.

Para alguém desprevenido, um astrónomo amador pode muitas vezes parecer uma pessoa estranha pois gasta o seu dinheiro em material para observar o céu, perde noites de sono, passa frio e ao observar tem exclamações de grande entusiasmo e, vai-se ver, no telescópio apenas se consegue ver uma quase imperceptível nebulosidade de uma qualquer galáxia que (mesmo com um telescópio de tamanho tal que só se pode guardar na garagem) se não se fosse avisado sobre o que se estava a ver, nem se reparava.

Pois é, mas é assim mesmo. Mas existem gostos piores. O gosto pela astronomia é geralmente de longa duração e, se não é constante, pelo menos produz recaídas mais ou menos frequentes. Mais cedo ou mais tarde a idéia de adquirir um telescópio vai ganhando força e aí também o problema de que telescópio comprar com o dinheiro que se pode gastar.

Uma primeira e fundamental ideia: Qualquer telescópio com uma objectiva (a lente da frente) menor que 60 mm de diâmetro, que não tenha um tripé robusto, que não tenha junto à ocular um prisma para desviar a imagem a 90º, ou que não permita a troca das oculares, deve ser considerado um brinquedo com pouca utilidade para observar o céu.

Segundo: Muitos telescópios de baixa qualidade são publicitados como dando 200, 300 ou mais aumentos. Isto é enganador pois embora matematicamente isso seja possível, não é na prática vantajoso pois a qualidade óptica destes aparelhos faz com que normalmente a definição da imagem se comece a degradar muito antes das 200X. Na maior parte das vezes a observação é mais fácil e confortável com baixas-médias ampliações de 40X ou 60X. O aumento da ampliação claro que aumenta a imagem mas também degrada a definição e, isto depende não só da qualidade óptica do sistema telescópio-ocular, mas também muito das condições de estabilidade da atmosfera e da altura que o objecto tem no céu - quanto mais perto do zénite, a vertical do lugar, melhor.

O aumento dado por um telescópio é facilmente calculado dividindo o valor da focal da objectiva pela focal da ocular. Por exemplo, um telescópio com objectiva de 900 mm de focal no qual seja colocado uma ocular de 20 mm fica a "dar" 45X.

Infelizmente em Portugal não é com frequência que se pode ver numa montra um telescópio em condições. Para dar uma ideia, um telescópio refractor que preencha aquelas condições mínimas, pode comprar-se por aproximadamente 30 contos. Claro que esta é a plataforma mínima, mas até pode ser a melhor escolha se o interesse é superficial. Ao comprar um telescópio com estas características deve ter consciência que se a "doença" não for passageira, rápidamente surgirá a vontade de adquirir um instrumento maior que permita alcançar magnitudes limite (estrelas com menos brilho) mais elevadas.

Quanto a mim, penso que ainda antes de considerar a compra de um telescópio, o pré-astrónomo amador deve ultrapassar algumas fases prévias:

1. Adquirir material escrito: Livros e revistas. A variedade de livros sobre temas de astronomia é cada vez maior e agora também em Português. Dá jeito saber Inglês pois existem revistas mensais muito boas como as americanas ASTRONOMY e SKY & TELESCOPE ou a britânica ASTRONOMY NOW. Em francês há a CIEL & ESPACE. São revistas para amadores, feitas por amadores e pode-se assim aprender muito, até mesmo nas páginas de publicidade.

2. Com as cartas celestes que vêm incluídas nesses livros ou revistas, deve-se começar a pouco e pouco a reconhecer no céu as constelações. Para mais tarde dar uso a um telescópio, é necessário saber para onde o devemos virar para encontrar determinado objecto.

3. No início, a compra de um binóculo do género 8X35, 8X40, 7X50 ou 10X50 não é de desprezar pois como primeiro instrumento pode ser muito útil. Um binóculo de qualidade média não necessita ser muito caro ( a partir de 15 contos) e será utilizado com frequência. Mesmo depois da compra de um telescópio sabe bem ocasionalmente recorrer a um binóculo pela ultra portabilidade e pela beleza do enorme campo de visão em relação ao que se consegue por um telescópio.

Pronto, já reconhece as constelações, tem alguns livros e revistas e até já espreitou pelo telescópio de um amigo e está mesmo decidido a comprar um para si. Como não existe o telescópio perfeito para tudo, baseado nas vantagens e desvantagens de cada tipo de telescópio, compre de acordo com o tipo de objectos que mais gosta de observar. Baseando-me estritamente no que se poderá observar diria: Decida-se pelo maior telescópio que o seu dinheiro puder comprar, mas lembre-se também que um telescópio muito grande pode ser muito desmotivador pela dificuldade de o transportar, e pode acabar por ser muito pouco usado. Observar por uma janela ou de uma varanda não é satisfatório excepto se o objecto for a lua, isto devido aos reflexos da iluminação pública e às correntes de ar quente ao longo das paredes originadas pelo arrefecer dos edifícios.

TIPOS DE TELESCÓPIOS

Os telescópios classificam-se em três tipos fundamentais: Aqueles que formam a imagem através de um sistema de lentes, chamados refractores; aqueles que formam a imagem através de espelhos, chamados reflectores; e os mistos que formam a imagem através de um sistema de lentes e espelhos, chamados catadióptricos por serem sistemas compostos por elementos reflectores (catóptricos) e refringentes (dióptricos).

REFRACTORES

A imagem que mais normalmente se tem de um telescópio está associada aos refractores, pois é possível encontrar à venda com relativa facilidade pequenos telescópios deste género. A imagem é formada pela refracção dos raios luminosos através da objectiva e observada pela ocular. Uma objectiva com qualidade mínima é formada por um par de lentes de diferentes tipos de vidro com o objectivo de eliminar a aberração cromática da imagem. Uma lente simplesmente, não consegue focar no mesmo ponto todos os comprimentos de onda do espectro visível. Esta objectiva assim formada denomina-se acromática. O termo "acromática" significaria que a refracção dos raios luminosos dos diferentes comprimentos de onda se faria na perfeição, mas na prática, um observador experiente consegue notar no bordo dos objectos alguma cor artificial. Na verdade, para melhores resultados neste aspecto, existem as chamadas objectivas "apocromáticas", nas quais uma terceira lente (ou outro par de lentes) ajuda a compensar melhor a aberração cromática. Como neste caso têm que ser trabalhadas seis superfícies de vidro em vez de quatro e o tipo de vidro usado é mais caro, os telescópios equipados com estas objectivas aparecem com preços mais elevados e pouco apropriados a principiantes.

REFLECTORES

Um telescópio reflector forma a imagem através de um sistema de espelhos, sendo mais vulgares os de tipo Newton (Isaac Newton). A imagem focada pelo espelho primário esférico ou parabólico, é desviada pelo espelho secundário (plano) colocado a 45º, para observação através da ocular.

Esquema de um telescópio tipo Newton

A precisão destes espelhos é muito grande pois só assim se conseguem imagens perfeitas. note-se que os maiores telescópios profissionais são deste género, por razões como os custos, a facilidade de construção e operação.

A construção pelo próprio de um telescópio tipo Newton também pode ser considerada uma alternativa. Existe literatura que ensina a construir instrumentos deste género, com resultados de alta qualidade, em termos de imagens obtidas (o autor conseguiu assim ter um óptimo telescópio sendo nessa altura um "teso" estudante). Atenção, isto é um empreendimento relativamente complexo devido essencialmente à precisão que deve ser conseguida na superfície dos espelhos e, por isso só recomendável a espíritos com muita, mas muita paciência. Quem quiser construir um sistema de Newton ou apenas fazer o seu cálculo pode começar pelo download do Newt - um pequeno programa shareware.

Esquema de um telescópio tipo Cassegrain

O sistema de Cassegrain é composto por um espelho secundário convexo hiperbolóide, que reflecte a imagem para uma abertura no centro do primário, sendo então aí colocada a ocular para observação. Actualmente é mais utilizada a configuração Schmidt-Cassegrain na qual é colocada uma lente correctora na boca do tubo principal, que permite "fechar" todo o sistema, tornando-o mais compacto e resistente. Existem também telescópios Schmidt-Newton que, por serem mais curtos, se tornam mais fáceis de transportar que os Newton simples.

Vantagens e Desvantagens

Vantagens dos refractores

   Vantagens dos reflectores

Mas afinal qual escolher?

       A escolha acabará por se basear muito na quantia que se pode gastar, mas também de outros factores como o tipo de objectos que se prefere observar, de onde se vai observar e dos meios de transporte.

    Dispondo de até 30 contos, pode-se comprar um refractor azimutal (ver tipos de montagem) de 60 mm e nada mais.

    Dispondo de até 100 contos pode-se comprar um refractor com montagem equatorial de 70 ou 80 mm de diâmetro. Ou,  alternativamente um reflector de 110 ou 120 mm.

     Podendo gastar entre 100 e 200 contos a melhor escolha pode ser um Newtoniano de 150 mm ~f/6, ou para melhor se transportar, um refractor de 90 ou 100 mm. Por exemplo, um reflector com objectiva de 100 mm e focal 1000 mm é mais adequado para observação de planetas que um reflector com objectiva de 150 mm e focal 750 mm porque a maior focal do primeiro permite maior ampliação usando a mesma ocular. Se o que lhe interessa mesmo são nebulosas e galáxias e dispõe de 200 contos, pode adquirir um reflector de 200 mm de diâmetro que tem um bom poder de captação de luz, mas não se esqueça que para tirar partido de todo esse diâmetro deve ir com ele para um local escuro longe das cidades mas, um bicho destes não pesa menos de 20 Kg e tem um grande volume. Tem um carro grande para o levar?

    Podendo gastar entre 300 e 600 contos talvez a melhor alternativa seja um Schmidt-Cassegrain por ser muito mais compacto e pela gama de acessórios normalmente disponível.

    Claro que existem telescópios ainda mais caros, mas se você é principiante e está a aprender alguma coisa neste site não será por esses que deve começar.

Alguns Links de Astronomia

European Shouthern Observatory. Página oficial da ESO

Eclipse Home-page. O melhor site sobre eclipses, tem tudo. Muitos links

Astrofotografia - António Cidadão. Astrofotografia de qualidade feita na cidade. Óptimo site.

Astrofotografia - Pedro Ré. Óptimo site. A voz da experiência em astrofotografia.

Sky & Telescope - Resources. A partir daqui encontra-se tudo relacionado com astronomia.

Universidade da Califórnia, San Diego Center for Astrophysics and Space Sciences. Noções básicas de óptica, telescópios e visão.

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